quinta-feira, 27 de agosto de 2015

Pepe Nuñez, artista: ‘Palhaço não é para animar festa infantil."

Radicado em Santa Catarina, espanhol, pesquisador da linguagem clown, veio ao Rio dar uma oficina de reciclagem num projeto do Grupo Off-Sina
Integrante da ONG “Palhaços Sem Fronteiras", o artista espanhol acredita que o personagem, ponto de encontro da humanidade, desperta identificação Foto: Guito Moreto / Agência O Globo
“Nasci em Alicante, na Espanha, tenho 54 anos e comecei minha carreira em 1985, em Barcelona. Pesquisei a linguagem clown com mestres de todo mundo, e viajo dando oficinas de reciclagem para palhaços, como integrante da ONG “Palhaços Sem Fronteiras”. Desde 1999 moro em Florianópolis”

Conte algo que não sei.
Sabe por que o palhaço veste roupas e sapatos grandes? Por que tem o nariz vermelho? Vou te contar. Originalmente o personagem era tão pobre que catava roupas no lixo. Antes de usar essas máscaras desenhadas no rosto que conhecemos hoje, o palhaço tinha a cara negra, porque representava o extrato mais baixo da sociedade, que era o trabalhador de mina, e o nariz vermelho, porque enchia a cara de cachaça .

Como surge o personagem?
O personagem representava tudo que ninguém queria ser. Quando o circo chegava no interior, levando as novidades tecnológicas da época, como o ímã, o gelo, a pólvora, com aqueles super-homens e super-mulheres que desafiavam o leão, o fogo, a gravidade, despertavam uma admiração tremenda nas pessoas. E, no meio de todos, surgia o palhaço, representando a ameaça do excluído, do inapto, o fracasso. Ele não consegue subir uma escada sem cair vinte vezes.

E o palhaço? Não despertava admiração?

O palhaço não desperta admiração, mas carinho. Identificação. Ele provoca a plateia inconscientemente: se eu, que sou tão torpe, que não consigo nem bater um martelo sem machucar o dedo, se escorrego toda hora e ainda te provoco amor, imagina o que você, que é melhor do que eu, pode provocar nas pessoas?

O palhaço é ponto de equilíbrio do circo?
O palhaço é o ponto de encontro da humanidade.

Por que você não se pinta?
Eu me identifico com esse palhaço original, sem maquiagem, quase sem cenário. Ser moderno na palhaçaria, acredito eu, é buscar essa tradição e adaptá-la ao público de hoje.

Se não houver escolas de palhaço o ofício corre risco?
Não. O palhaço vai se formando como pode. Muitos de nós que hoje lecionamos nos formamos buscando a vida. Aproveitando uma oficina aqui, um curso ali. Só que é uma formação carente. E hoje em dia há escolas, referências.

Mas ainda é uma formação romântica?
Continua sendo romântica. Se você quer ser palhaço, tem que dar um mergulho muito profundo em si mesmo. É muito doloroso. Você tem que morrer e renascer. E encontrar muita resistência dentro de você mesmo. E isso é autoconhecimento, que pode ser lido como romantismo. Principalmente depois da crise do circo, nos anos 80, quando o palhaço migra para a televisão, e se torna mais caricato do que profundo. E começa a ser relacionado exclusivamente ao universo infantil... Palhaço não é coisa de criança.

Como assim?
O palhaço trabalha a partir da dor, do fracasso, da perda. Com o olhar da criança, mas no sentido da transparência, da pureza. Palhaço não é para animar festa infantil. Ele sofreu muito. Ele morreu muito. Ele sempre fala da dificuldade da vida, do erro. Isso não é trabalho para criança. Mas a alma dele é tão transparente e verdadeira que a criança também alcança a mensagem do palhaço.

A TV corrompeu o palhaço?
Desvirtuou. Levou para o lado do entretenimento, da desfiguração. O palhaço passou a ser mais colorido, a usar a piada fácil, pronta. E humorismo não tem nada ver com palhaçaria. O palhaço não ri dos outros, não ri do aleijado, do negro, do veado: ele ri dele mesmo. O palhaço não olha com discriminação, ele funciona como um espelho que reflete a sua humanidade.

E no que isso resulta?
O palhaço sempre transita pelo fracasso, mas nunca termina no fracasso. Apanha o que tiver que apanhar, tropeça mil vezes, mas não desiste até encontrar uma solução. Quando você assiste a um palhaço bom, você sai mais confiante, purificado.

Via: oglobo.globo.com




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